Os desafios da inclusão escolar da criança autista 

Os gêmeos Davi e Rafael estudam na mesma escola, no maternal 2, mas em turmas diferentes. A mãe, a securitária Samantha de Paula Barbosa, gosta do colégio, mas sabe que ainda vai enfrentar muitos desafios pela frente. É que um dos meninos, o Davi, é autista. E Samantha precisa estar em constante vigilância para que o filho consiga sucesso na inclusão.

“O Davi estuda em uma escola regular. A inclusão dele deixa a desejar pois não tem mediadora. Eu encontrei dificuldade esse ano. Quando solicitei ajuda da escola para me ajudar no desfralde, eles foram bem resistentes e para conseguir essa ajuda tive que me impor”, conta.

 

Para Samantha, as escolas não estão preparadas. “Falta qualificação dos profissionais e boa vontade também”, opina.

Ela reconhece, no entanto, que a parceria com a escola é fundamental e acredita que tudo irá se ajustar. “A escola é bem fechada , mas sou exigente e luto como uma verdadeira mãe. Estamos sempre dispostos a tudo. Meu filho conquistou poucos avanços graças a Deus, à família – que abraçou a causa -, às terapeutas e, de certa forma, à escola. Hoje Davi faz contato visual, atende quando é chamado, segue comandos, entende tudo ao seu redor e emite poucas palavras, como mamãe, papai, não…”, afirma.

 

Capacitação sobre autismo

Para a mãe de Davi, o ideal é que as escolas ofereçam profissionais qualificados, realizando a inclusão de fato. Para ajudar nesta tarefa, a pedagoga Raphaela Barros, habilitada em Administração Escolar, especialista em Orientação Educacional, escritora e professora da rede municipal de Ensino do RJ, criou um curso de capacitação sobre autismo na Educação Infantil.

“Com o grande número de crianças autistas nas escolas e sem muito conhecimento por parte dos profissionais em como trabalhar com elas, o curso de autismo surgiu com o intuito de desenvolver nestes profissionais a prática real de uma criança autista na sala de aula, especialmente na educação infantil. Muitos cursos ensinam a teoria, mas a demanda dos educadores é a prática, de saber como fazer num momento específico de um autista, de entender seu histórico sócio-cultural, de como adaptar as atividades, de auxiliar as famílias, de conhecer essa realidade e fazer com que esta criança seja inclusa de verdade, como todas as outras”, explica Raphaela.

A pedagoga enfatiza que são necessários amor, carinho e respeito para que a relação da escola com a família frutifique. “É sentir a dor e as dificuldades que as famílias encontram para fazer uma criança autista crescer e se desenvolver. Estar em contato com elas, ter uma interação com os especialistas que trabalham com a criança, estar pronta para mediar as atividades pedagógicas, incluindo o aluno com as devidas adaptações. Não existe uma receita. Os autistas são bem diferentes uns dos outros, mas precisam ser acompanhados de perto, insistindo até conseguirem o objetivo”, ensina.

 

Parceria 

Raphaela destaca que o trabalho deve basear na confiança e na parceria. “Quanto mais informação a escola tiver, mais poderá contribuir para o sucesso do trabalho. A escola precisa comunicar os pais qualquer mudança de comportamento e direcionando para a investigação com os especialistas, começando pelo pediatra, que já conhece a criança. Além disso, precisa buscar estratégias para a prática pedagógica, seguir as orientações dos especialistas, sempre com o retorno das avaliações, trabalhar com um mediador escolar que vai somar ao trabalho do professor, adaptando as atividades ao nível de acompanhamento do aluno”, acrescenta.

Para a especialista, quando a inclusão é feita de forma responsável, todos ganham: escola, família e a criança. “Não só a criança autista, mas qualquer criança que é amparada pela família e pela escola numa parceria tem resultados mais significativos. A criança autista, devido às suas limitações, requer uma exigência maior de cuidado e precisa entender que faz parte daqueles ambientes. Com este compromisso e com o amor de ambos os lados, ela se sentirá parte do processo e, com certeza, terá resultados excelentes. Caminhado junto com ela, passando segurança, companheirismo e mostrando que ela é capaz, ela reagirá positivamente e dentro do seu tempo conseguirá os objetivos”, conclui Raphaela.

 

O que é e como lidar com o autismo (Fonte: Nova Escola)

O autismo, também chamado de Transtorno do Espectro Autista, é um Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD) que tem influência genética e é causado por defeitos em partes do cérebro, como o cerebelo, por exemplo.

Caracteriza-se por dificuldades significativas na comunicação e na interação social, além de alterações de comportamento, expressas principalmente na repetição de movimentos, como balançar o corpo, rodar uma caneta, apegar-se a objetos ou enfileirá-los de maneira estereotipada. Todas essas alterações costumam aparecer antes mesmo dos 3 anos de idade, em sua maioria, em crianças do sexo masculino.

Para o autista, o relacionamento com outras pessoas costuma não despertar interesse. O contato visual com o outro é ausente ou pouco frequente e a fala, usada com dificuldade. Algumas frases podem ser constantemente repetidas e a comunicação acaba se dando, principalmente, por gestos. Por isso, evita-se o contato físico no relacionamento com o autista – já que o mundo, para ele, parece ameaçador. Insistir neste tipo de contato ou promover mudanças bruscas na rotina dessas crianças pode desencadear crises de agressividade.

 

Respeitar os limites da criança

Para minimizar essa dificuldade de convívio social, vale criar situações de interação. Respeite o limite da criança autista, seja claro nos enunciados, amplie o tempo para que ele realize as atividades propostas e sempre comunique mudanças na rotina antecipadamente. A paciência para lidar com essas crianças é fundamental, já que pelo menos 50% dos autistas apresentam graus variáveis de deficiência intelectual. Alguns, ao contrário, apresentam alto desempenho e desenvolvem habilidades específicas – como ter muita facilidade para memorizar números ou deter um conhecimento muito específico sobre informática, por exemplo. Descobrir e explorar as ‘eficiências’ do autista é um bom caminho para o seu desenvolvimento.

A criança autista deve estar inserida no contexto integral da escola e a instituição, por sua vez, deve respeitar suas particularidades. Mesmo que muitos profissionais de educação se vejam diante de um grande desafio para lidar com alunos que precisem de uma atenção maior, devemos dizer que a própria criança é quem lidará com barreiras a serem derrubadas.

 

Onde buscar informação:

ABRA – Associação Brasileira de Autismo / AMA – Associação Amigos do Autista / FADA – Fundação de Apoio e Desenvolvimento do Autista / Movimento Pró Autista / Universo Autista

Além do Autismo na Educação Infantil, a pedagoga Raphaela Barros oferece cursos de qualificação profissional sobre auxiliar de creche, berçarista, primeiros socorros, entre outros. Contato: (21) 97310-5445

Davi com o irmão Rafael 

Fotos: Samantha com o filho Davi

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