Os estudantes excluídos digitais na pandemia – como recuperar essa defasagem

Os estudantes excluídos digitais na pandemia – como recuperar essa defasagem

fev 07 | Tais Faccioli

Esse é um processo de defasagem que não vai acontecer apenas em uma escola e sim numa geração.

Claudine Gomes, diretora da Escola Municipal Senador Francisco Gallotti

Os estudantes de todo país iniciam mais um ano letivo tendo de conviver com a ameaça da Covid-19. A pandemia impôs uma lacuna aos estudantes de baixa renda, que ainda precisa ser avaliada. Com um longo período de ensino remoto, muitos tiveram dificuldade de acompanhar as aulas, uma vez que eram necessários equipamentos e acesso à internet.

As escolas particulares retornaram ao ensino presencial ainda em 2020, oferecendo aulas híbridas para permitir que os alunos em isolamento pudessem acompanhar a turma. Já as escolas públicas foram retornando ao presencial aos poucos, a maioria no ano passado. Diante de um cenário com realidades tão distintas, a pandemia acabou impactando a educação no Brasil, aprofundando a desigualdade que já existia entre os estudantes de baixa renda e os demais.

Especialistas ouvidos pelo site apontam caminhos para recuperar essa defasagem. A reportagem será dividida em duas partes – ensino fundamental e ensino médio.

Claudine Gomes, diretora da Escola Municipal Senador Francisco Gallotti, em Cascadura, Zona Norte do Rio, conta que quando a pandemia começou, em março de 2020, e as aulas presenciais foram suspensas, os profissionais do colégio logo começaram a procurar meios para que o conhecimento chegasse aos alunos de forma bem acessível. Num primeiro momento, o conteúdo foi enviado pelo Facebook, facilitando que os pais também pudessem acompanhar a rotina escolar. Eram realizadas lives por esse canal e os professores faziam pastas com álbuns de atividades para cada turma.

Com o agravamento da pandemia, que manteve as escolas por mais tempo no ensino remoto, o processo teve de ser repensado para incluir um suporte assistencialista – como distribuição de cestas básicas – às famílias que estavam passando por dificuldades financeiras.

“A gente começou a perceber que alguns alunos não curtiam mais as postagens, os pais não comentavam e haveria necessidade de não só fazer esse acompanhamento pedagógico, mas também a parte emocional. As pessoas estavam perdendo seus entes queridos, perdendo emprego… Então a gente teve de conciliar o acesso ao conhecimento com essa parte emocional do aluno”, relatou Claudine.

Esforço para manter a inclusão

A diretora conta que a caminhada e o esforço para manter todos os alunos incluídos foram difíceis. “A devolutiva de atividades não tinha um caminho muito fácil porque os alunos dependiam de acesso à tecnologia. Então a gente decidiu criar uma conta comercial do Whatsapp da escola, montar dois grupos para cuidar não somente das questões pedagógicas, mas também ajudar os pais”, acrescentou.

Claudine disse que, mesmo assim, alguns pais não tinham celular para contato ou acesso à internet. “A gente viu ali que não havia igualdade de oportunidades, não havia equidade. O acesso ao conhecimento era mais fácil para alguns alunos do que para outros. As mães que conseguiram trabalhar de casa puderam dar mais atenção aos seus filhos. As outras não. E algumas crianças tinham, inclusive, de cuidar dos irmãos em casa. Então, a comunicação pelo telefone quase não estava sendo utilizada. E a gente passou o ano de 2020 assim, buscando alternativas”, contou.

Novas tentativas

A solução mais eficaz foi a criação de um link no Facebook que ia direto para o drive da escola, com pastas que disponibilizavam as atividades de todas as turmas. “Cada turma tinha um link e a gente postava toda segunda-feira”, disse.

E explicou: “organização a gente conseguiu ter, mas a falta do telefone, do computador era assustadora”, lamentou Claudine, acrescentando que muitas vezes a criança tinha de esperar o pai ou a mãe chegar do trabalho para ver as tarefas da escola no único celular da família.

A diretora lembra, ainda, que quando começaram as aulas online, em 2021, muitos não conseguiam participar e o professor dava aula para dois ou três alunos. “Aí, os próprios alunos começaram a se mobilizar, se juntar nas casas para assistir as aulas, mas era um processo difícil. Muitos ficaram excluídos”, lamentou.

Claudine conta que, quando a prefeitura disponibilizou o aplicativo RioEduca, com dados móveis gratuitos, melhorou um pouco. Mas ainda assim era preciso ter internet e espaço no aparelho para baixar o aplicativo. “Eu comecei a pedir que eles levassem o celular para a escola e eu mesma ia colocando o conteúdo para eles. Tudo que a escola pôde fazer para facilitar, ela fez”, completou.

Lacuna na volta ao presencial

A diretora disse, no entanto, que quando houve o retorno ao presencial, em 2021, a equipe pedagógica percebeu uma lacuna gigante entre esses alunos que puderam ter acesso aos conteúdos e os que não tiveram a mesma oportunidade. “O conhecimento nunca faltou. As oportunidades foram diversas e quem teve acesso ao material conseguiu caminhar. Alguns alunos, no entanto, passaram o ano de 2020 e metade de 2021 sem pegar num caderno”, observou.

“Esse é um processo de defasagem que não vai acontecer apenas em uma escola e sim numa geração”, alerta.

Caminho possível

Para minimizar esse processo, Claudine conta que precisou envolver toda a comunidade escolar. O foco será trabalhar em cima dos alunos que apresentam mais defasagem. “Criamos a hashtag #juntossomosmaisfortesemelhores , fizemos sala de leitura, investimos em material pedagógico e jogos, dando mais ludicidade a esse processo porque muitos voltaram desanimados. Incluímos a escuta e o afeto para sensibilizar principalmente os pais, de forma a entenderem que a gente precisaria deles, incentivando seus filhos a não faltar às aulas”, disse.

“Não vai ser nesse ano de 2022 que a gente vai conseguir preencher todas as lacunas. Sabemos que não vamos sanar esse abismo de uma hora para a outra, mas temos um cenário mais otimista. Estamos planejando em cima daqueles que têm mais dificuldades. Estamos trabalhando essa lacuna de forma multidisciplinar, mas também olhando para a parte emocional, com acolhimento, escuta e comprometimento”, conclui Claudine.

A realidade do Colégio Pedro II

Raquel Nascimento, professora do 1º segmento no campus Engenho Novo do Colégio Pedro II, conta que, em 2020, os alunos não tiveram ensino remoto e sim atividades nas plataformas que eles podiam acessar. “Num primeiro momento, a nossa preocupação era justamente buscar o máximo de democracia, igualdade e atendimento a todos, que é o papel da escola pública. Por isso, a gente não tornou o ensino remoto como algo obrigatório. A gente não conseguia conceber que pudesse, da noite para o dia, virar uma escola digital, sendo que a gente tem um público muito diverso, com realidades diferentes. A gente precisava garantir que todos teriam acesso”, conta, acrescentando que primeiro foi feito um levantamento de quem tinha internet, quem precisaria ganhar algum tipo de auxílio…

“Isso foi feito e, em 2021, nós conseguimos começar o ensino remoto, já garantindo que as famílias que se inscreveram tinham conseguido as condições mínimas por meio do auxílio digital para compra de um aparelho, manutenção da internet. Em 2021, o ensino foi remoto. A gente flexibilizou as horas e os dias letivos para cumprir o ano. A gente fez 2020 até julho e 2021 vai terminar de cumprir até abril de 2022”, explica.

Defasagem para além da exclusão digital

Para Raquel, o ensino remoto nunca vai substituir o presencial. “Ele não é o ideal, mas a gente também não criou essa situação. O Pedro II foi muito cobrado porque foi uma das escolas que não voltaram, mas diante de todo um contexto difícil, a gente garantiu que as crianças tivessem minimamente condições de acesso, a gente sempre esteve de acordo com as orientações dos órgãos de saúde e conseguiu manter os elos afetivos. A gente sempre teve uma consciência muito forte de que esse ensino remoto não substitui em nada o presencial, que a defasagem existe não apenas para as crianças com mais dificuldade de acesso, mas para todos em geral porque há sempre perdas. Mas percebo que o vínculo afetivo foi mantido e a gente conseguiu um mínimo de aprendizado porque flexibilizou o currículo. A gente conseguiu fazer o melhor possível. O Pedro II não teve exclusão digital porque conseguiu fornecer auxílios”, afirma.

Raquel lembra, no entanto, que mesmo dando os auxílios, a exclusão pode se dar por outros fatores. “Nem todas as famílias têm estrutura, um local silencioso em casa. Dependendo da rotina de trabalho dos pais, alguns não conseguiam acompanhar a criança. Alguns alunos ficaram abandonados em casa porque no ensino a distância é preciso contar com a parceria dos pais. A gente só vai ter noção do efeito disso quando voltar ao presencial e fizer uma avaliação para ter noção do tamanho do prejuízo”, diz.

O que fazer

Para Raquel, a solução para corrigir essa defasagem é dar apoio a essas crianças.
“O Pedro II, neste ponto, tem uma filosofia que visa garantir que todos tenham as mesmas oportunidades. A gente está fazendo uma avaliação diferenciada: participação, devolução mínima das atividades e, quem cumpre isso, está sendo aprovado. Quando a gente voltar, vai ver no que isso deu. E o colégio, a partir do momento em que optou por essa estratégia de dar acolhimento a todos, vai ter que dar conta disso: aula de apoio. Provavelmente a gente vai ter que continuar flexibilizando o currículo nos próximos anos porque, em algum momento, as turmas poderão apresentar defasagens de conteúdo que precisam ser sanadas”, aponta.

A professora diz que a instituição precisa ter consciência de que essas crianças precisam de um olhar acolhedor daqui pra frente. “Fazer uma força-tarefa e mudança de olhar para recuperar a aprendizagem que foi prejudicada. No caso da gente que trabalha com crianças pequenas, ver a base: leitura, escrita e resolução de problemas”, avalia.

Para Raquel, o Pedro II tem infraestrutura e pessoal para recuperar essa defasagem.

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