Os desafios da Educação em 2022 em meio ao recrudescimento da pandemia

“Devemos esperar um recomeço, um reencontro, para que possamos trilhar novos caminhos de aprendizagens, a partir das necessidades que surgem deste tempo que passamos afastados”.

Maria Teresa Tedesco, professora Associada de Língua Portuguesa da UERJ

A educação jamais será a mesma depois de tudo que vivemos nesses últimos dois anos de pandemia. Começamos 2022 com a esperança renovada, embora sob a sombra de um novo surto de covid-19. O caminho não será fácil, mas só se conhecerá o sucesso enfrentando os obstáculos que se apresentarem. Para ajudar a nos preparar para os desafios deste momento, conversamos com algumas educadoras.

A professora Associada de Língua Portuguesa da UERJ, Maria Teresa Tedesco Vilardo Abreu propõe uma reflexão do biênio 2020/2021 antes de fazer projeções para o ano que se inicia.

“Não é novidade que as medidas sanitárias de distanciamento social afetaram diretamente a dinâmica dos processos de ensino-aprendizagem na educação brasileira, atingindo todos os níveis de ensino, não só o ensino superior como também a escola básica. Evidentemente, a reação, à forma improvisada da realidade das aulas online, atingiu aos estudantes de formas diferentes”, aponta.

Nesse contexto, Teresa direciona o olhar para o ensino básico e sua diversidade, não só no que diz respeito às diferentes faixas etárias, conformadas ao longo desta escolaridade, mas também no que tange às esferas públicas e privadas.

“O que se sabe é que, aos poucos, o ensino online tornou-se generalizado e prevaleceu sobre o ensino presencial na maior parte do país. Majoritariamente, essa “forma de ensino” designou, apenas, um elenco de vídeos, tarefas e exercícios acerca de determinado tema, de um conteúdo específico, selecionado por um professor, cuja função ficou absolutamente reduzida a um “escolhedor de conteúdos”, “preparador de power points”, considerando os anos de escolaridade mais elevados. Para os pequenos estudantes, não houve, em muitos casos, qualquer contato mínimo com os professores e professoras ou com qualquer atividade didática”, opina Maria Teresa.

A responsabilidade de cada um

A especialista ressalta a necessidade de conscientização para a importância da escola, pois é preciso que os alunos e alunas voltem para ela. “Este contexto é fundamental para que se possa entender a diversidade de funções que os diferentes atores do cenário educacional devem exercer. Nesta tríade – pais, professores e estudantes – devem ter a certeza da função fundamental da escola para o desenvolvimento do conhecimento formal”, completa, explicando que se refere a formal porque ainda que afastados da escola, ao longo deste período, os estudantes aprenderam. 

Para Teresa, a função fundamental dos pais e dos responsáveis é fazer com que os estudantes voltem e entendam importância da escola.

Cabe aos estudantes, acrescenta, redescobrirem a função fundamental que a escola pode ter na vida de qualquer pessoa. “Somente a escola pode mudar a vida de cada estudante. A escola é a fonte de conhecimentos, é a fonte de socialização. Escola é vida”, garante.

A educadora diz, ainda: “cabe aos professores/ as, coordenadores/as e diretores/as (re)transformar para receber nossos alunos/as que estão largados neste distanciamento, desvalorizados por tudo o que vimos vivendo como seres humanos, sofridos e precisam, agora, reunir novos conhecimentos para seguirem na vida”.

 Tecnologia, interação social e habilidades socioemocionais

A professora do Ensino Fundamental do Colégio Andrews, Fabiane Martins, também avalia que os impactos desses dois anos de pandemia no processo de aprendizagem devem ser considerados. “Desta forma, instrumentos de avaliações diagnósticas específicas, como ponto de partida para criação de estratégias de ensino, são importantíssimas para favorecer uma autorregulação dos planejamentos e conteúdos”, reflete.

Fabiane diz que os ganhos com a tecnologia devem continuar cada vez mais presentes no processo de ensino-aprendizagem, tanto como uma ferramenta para o professor quanto como meio para estimular os alunos. “Outro aspecto importante, é o investimento na interação social e nas habilidades socioemocionais, para que os alunos consigam lidar com suas próprias emoções e sejam capazes de se relacionar com o outro de forma colaborativa, mediar conflitos e solucionar problemas”, acrescenta.  

Novas formas de ensinar e aprender

Já a Mestra em Educação Básica e professora da rede pública Adriana Querido acredita e espera que a partir deste ano tenhamos uma escola que repense suas formas de fazer, agir e utilize as metodologias ativas nas propostas pedagógicas.

“Vivemos ainda com situações de ensino e aprendizagem totalmente descontextualizadas e distantes da realidade dos estudantes. Práticas que permanecem iguais às de séculos anteriores e estudantes também, pois revelam desinteresse e falta de envolvimento com as atividades propostas e não reconhecem seu protagonismo no que precisam fazer”, diz.

Para Adriana, essa falta de harmonia entre escola e alunos torna-se cada vez mais evidente nos resultados bimestrais, avaliações internas e as de larga escala. “Percebemos que eles não veem avaliação como processo, mas como fim e parecem não se interessarem pelas aulas, mas somente pelas notas para aprovação. Entretanto, com uma proposta de metodologia ativa, na qual podem assumir o protagonismo nas aulas, participar, dialogar e agir com o reconhecimento de que as aulas são um retrato da realidade, podem discutir temas como cidadãos críticos em formação”, completa.

Adriana Querido, professora da rede pública, com seus alunos antes da pandemia

A professora fala que sempre se pensa na importância da escola e em seu papel na sociedade de forma tão massacrante e faz com as aulas se tornem, muitas vezes, massivas e maçantes.

“Com esta reflexão, as propostas de uma metodologia ativa que os envolva e, atraia faz com que os planejamentos sejam sempre revistos, atualizados e construídos com base em problemas, projetos, gamificação, sala de aula invertida e desafios constantes. Tais reflexões sobre essas novas formas de ensinar e aprender, caminhos e possibilidades de fazer mudanças significativas colaboram nos processos de aprendizagem e fazem que a práxis seja constante e a mudança efetivamente aconteça e seja real”, afirma.

Busca de estratégias em novo contexto da pandemia

A professora do Ensino Fundamental da rede municipal do Rio, Juliana de Abreu Cordeiro observa que educar já é um desafio constante enfrentando política, cuidado com a saúde, segurança, ausência de valores básicos para a construção de uma relação harmoniosa e respeitosa na dinâmica da interaçăo do conhecimento: troca, diálogo, mediação e criatividade em inovar com o recurso disponível.

“Diante da ameaça de uma nova variante da Covid-19, em que apresenta o quadro de uma alta transmissibilidade; portanto novamente o ambiente escolar com muito respeito à vida e à Ciência caminhará dentro do contexto educacional em parceria com a consciência e a compreensão das famílias, a educação buscará medidas, recursos e estratégias peculiares, para dar conta deste novo contexto da pandemia”, diz Juliana.

Professora Juliana Abreu com a turminha da Educação Infantil vivenciando experiências em sala durante a pandemia

Para a professora, é necessário o despertar de uma consciência coletiva para o autocuidado e o bem comum para toda sociedade, em defesa da preservação da vida, com o apoio da campanha de vacinação, para diminuir o surgimento de novas variantes.

“Mais uma vez, a educação ressignifica o seu papel com diálogo e medidas protetivas, para cumprir o papel de se repensar ‘aprender a aprender’, ‘aprender a pensar’ e ‘aprender a conviver’ com as circunstâncias adversas que a vida coloca à prova. Olhar para frente, a prova é individual, mas o bem-estar deve ser coletivo”, destaca.

O que esperar da Educação

Maria Teresa Tedesco é taxativa: “devemos esperar da Educação um recomeço, um reencontro, para que possamos trilhar novos caminhos de aprendizagens, a partir das necessidades que surgem deste tempo que passamos afastados. Não se pode esperar a chegada desse aluno, que nem sempre conseguiu o acesso ao aprendizado formal da mesma forma que recebíamos este aluno/ antes da pandemia.”

Para as instituições de ensino, Teresa aponta o caminho: “Devemos esperar que as escolas, as secretarias revejam o Currículo, o planejamento das diferentes disciplinas, que façam associações de conteúdos das diferentes disciplinas, que tornem a escola muito atrativa e necessária para as mudanças que precisam ser feitas, para que os alunos possam desenvolver, sistematizar seu conhecimento formal. Eu acredito”, finaliza.

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